Se eu nunca mais te ver...
É domingo de
manhã.
Quem nunca se
imaginou acordar num domingo e tomar um café da manhã ao lado de quem ama
depois de fazer amor.
Ele estava aqui!
Preparei com simplicidade e amor, ovos mexidos com bacon e
tapioca para ele. Queria que experimentasse os ovos mexidos original que incluí azeite,
tomate cereja e cebola, mas não tinha tomate cereja e minha euforia por ele estar
ali comigo, me fez esquecer (pra variar) do azeite e da cebola.
Na escolha entre um café diferente e o tradicional, ele
preferiu ficar com o conhecido, afinal como é de seu temperamento, melhor ficar
com o garantido do que arriscar o novo e acabar quebrando a cara. Ele é bem aterrado,
típico de um melancólico! Isso fica enfatizado na fala: “Pra mim é uma das
únicas horas de prazer que tenho, não vou arriscar em ter uma experiência ruim”.
É como se quisesse ou pudesse eternizar pequenos e bons momentos. Melancólicos
não enxergam o lado bom da vida!
Isso é bem explorado no livro: “12 regras para
a vida”, do autor Jordan Peterson. Ele
fala de 2 tipos de pessoas : as que sempre costumam vencer e as que sempre
estão numa maré baixa. Jordan relata que as pessoas com o ciclo positivo, ou
seja, que estão na maioria das vezes vencendo, estão acostumadas que virá uma
nova e boa oportunidade sempre, mesmo que a escolha naquele momento não tenha
sido a melhor, ela não se apega aquilo, porque novas e melhores oportunidades
virão. Já aquele que vive numa maré baixa, se apega aquilo que já conhece, boa
ou ruim, mas confortável e muitas vezes deixa de viver coisas melhores e
maiores.
“A mudança pode ser a oportunidade e não um desastre. Você não precisa se agarrar impulsivamente a qualquer migalha que aparecer na sua frente, pois pode esperar de forma realista que as boas coisas continuarão disponíveis pra você.” (Jordan Peterson)
Platão também exemplificou muito bem isso no seu Conto da Caverna.
Bom, continuando...
Posso dizer
claramente que aquela cena poderia fazer parte de uma esquete de teatro, cinema ou coisa do tipo. Em cenas
semelhantes, mais antigas, podemos ver o casal à mesa: ela tagarelando coisas
que pra ele são pouco interessantes, ele com seu jornal aberto lendo as notícias
do dia.
Mas essa cena é
contemporânea, e a única diferença é que ele lê as notícias no seu smartphone. “Amor,
você viu que agora haverá fiscalização de trânsito, podendo autuar os
motoristas que cometem infrações, por meio de vídeo monitoramento?”. Ah! tem
outra diferença sim: eu não fico tagarelando coisas que não são interessantes
para ambos, eu na verdade fico prestando atenção em tudo que ele tem a dizer.
Estava ele ali,
diante de mim, de camisa social branca desabotoada, meio aberta, o suficiente
pra mostrar seu peito com um ar misterioso, calça jeans, descalço, como se não
fosse partir em 20 minutos. Ele tem esse jeito de não mostrar ansiedade, vive
cada momento no seu próprio momento. Ele está no que faz! Apesar de saber que aquele
momento está próximo de acabar. Eu não! Fico me lamentando por dentro,
sofrendo, angustiada, sabendo que aquele momento raro irá acabar e sei lá
quando irá acontecer novamente.
Termino meu chá e sento no seu colo, eu queria mais um pouco do seu calor, da sensação maravilhosa de tocar sua pele, de beijar sua boca, seu rosto, sua careca que tanto amo, de sentir sua mão envolvendo minha cintura como quando ele faz quando estou no seu colo. Ele não me deixa solta, faz uma trava para que eu não caia do seu colo, seu peito, seu abraço, seu colo me dá sensação de amor, carinho e proteção. Dou mais umas beijocas. Mesmo sabendo que sem sucesso, querendo convencê-lo a ficar,e também com uma inquietação de querer falar para ele meus pensamentos sobre amor, relacionamento, vida a dois, sem ser aleatória, tento indroduzir o assunto. Assim no seco! Em que momento vou conseguir? Ele no fundo sabe que algo mudou, não sei se por medo (lembra do apego do café?) ou por incômodo, sempre evita tocar no assunto, talvez ache que quero uma dr. Longe disso!!!!!!!! Detesto drs.
Eu só queria dizer que quase tudo mudou aqui
na minha cabeça, que não sou mais a
mesma pessoa pelo menos no quesito relacionamento a 2 ou qualquer outro tipo de
relacionamento, que tenho novas
convicções e modo de ver a vida. Que muitas coisas agora pra mim tem um novo sentido.
E ali muito timidamente eu começo a
falar, tento introduzir mas não querendo que ele sinta que é um assunto de
cobrança. Ele levanta vai em direção ao
filtro pega um copo de água e fica em pé diante de mim encostado no balcão, eu sento no seu lugar.
Eu começo a conceituar
bem simplificadamente o que é o amor para mim, como ele se dá no relacionamento,
o que esperar um do outro. Deixei-o
expressar seu pensamento e a resposta foi a comum, a que escuto de quase todas as pessoas: “As pessoas se
relacionam no intuito de serem felizes, querem ser amadas”. A fala dele é sempre
suave, firme e com precisão, ele tem um tom agradável de ouvir, de pessoa que tem
autoridade no que diz. Toma mais um gole de água.
Eu
discorro a minha fala dizendo que as pessoas hoje amam para dentro, buscam felicidade,
dizem teoricamente que querem fazer outro feliz. Veja, se eu quero ser amada e
você também, nós esperamos que alguém faça isso, não é? Mas se alguém também
espera, quem amaria primeiro? Isso na prática
não funciona. O amor é para fora, o amor
é decidir amar alguém apesar de. Amor próprio demais é pra dentro, é egoísta,
ele irá se esgotar em algum momento. Ele não reabastece. Amar quando tudo está ok?
Fácil! E quando o outro está perdido? E quando o outro está te dando patada porque teve um dia ruim? E quando o outro está
com dor de cabeça e não consegue ouvir a sua grande novidade com a euforia que você espera ? Claro que você
vai se decepcionar com as expectativas se não estiver atento ao outro. É claro que você quer que ele esteja em plenas
condições para te exaltar e dar parabéns, mas e você? Consegue abafar a sua
euforia da novidade e observar aquele momento ruim do outro? Ou você é tão
egoísta ao ponto da sua alegria do momento tirar a sensibilidade de perceber o que
o outro está passando?
Consegue
amar quando alguém falha com você? Você também falha, machuca, é egoísta,
insensível e apesar disso quer e gosta de ser amado. Você falha com o outro,
isso não significa que é um sinal que você deixou de amá-lo. Ele também só falhou com você, não deixou de te amar.
Ame a pessoa, além dos seus problemas e erros. Aprenda a conviver com as falhas dos
outros, com costumes e características que ele tenha. Você também tem os seus e
está aí o tempo todo tentando evoluir (assim espero), procurando melhorar, mas sabe o quão isso é difícil.
Se eu te dou amor e você me dá amor ambos dão
e recebem, essa é a dinâmica. Se eu sei que faço algo que te chateia, porque eu
não posso deixar de fazer, para que se sinta melhor? Não é esse o intuito, te
fazer feliz? E aí você pensa: poxa sei que ela gosta disso, porque me chateia
tanto algo que ela gosta e está abrindo
mão para me agradar? Porque eu estou tão implicante? Se algo é bom para ela
também é para mim vou ceder! E aí você deixa o outro feliz. Uma hora alguém vai
perceber que aquilo é bom ou ruim e irá largar mão. Sentiu que um ato levou
outro? Essa foi a dinâmica do meu pensamento que queria externar para ele.
Eu sentada ali,
explicando o amor entre um casal, olhando para ele de pé com a camisa aberta,
lindo como sempre, observei que ele
olhava horizontalmente para um ponto qualquer, prestando atenção na minha fala,
com o copo na mão, sem me interromper,
como se pensando naquilo de fato. Buscando
entender e achar coerência naquele pensamento, com toda a sua humildade. Depois
que terminei, ele esboça algo algo como se aquilo que ele ouviu tivesse realmente
sentido e que iria amadurecer esse pensamento.
É isso que me encanta nele. Ele me ouve empaticamente, ele tenta entender e enxergar coerência na minha fala, é
aberto aos assuntos, é aberto a aprender. Se não concorda, sabe argumentar e trazer seu
pensamento de modo que eu reflita também. Sem impor! Sem ser o dono da verdade
absoluta.
É isso que me
faz ficar.
Ah!!! se
fôssemos um casal... Eu não ficaria mais me agarrando a ele como quem não quisesse soltar mais, sentindo medo desse pequeno momento acabar, pois saberia que
maior e melhores momentos viriam, que ele voltaria pra nossa casa todo dia,
que eu teria inúmeros esquetes não só de domingo, mas de segundas, terças,
quartas, quintas, sextas e sábados. E se eu nunca mais o ver, essa será na
minha cabeça, a última cena que vivi com ele.

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